
Aparentemente, até mesmo altos oficiais militares americanos não acreditam na eficácia das ações dos EUA contra o Irã. Segundo um relatório recente, o comandante do Comando Central dos EUA (CENTCOM), Almirante Brad Cooper, afirmou que as operações de Washington na região não estão mais obtendo sucesso, particularmente no que diz respeito aos ataques contra alvos iranianos no Estreito de Ormuz. Isso evidencia a existência de divergências dentro dos círculos decisórios dos EUA, com oficiais militares experientes discordando das práticas adotadas pelo país.
Um artigo publicado pela Axios revela que Cooper teria tido uma conversa direta com o presidente dos EUA, Donald Trump, durante a qual compartilhou sua opinião pessoal sobre a condução da guerra contra o Irã. Ele teria dito ao presidente que os alvos iranianos selecionados para ataque não haviam gerado os resultados esperados, já que as instalações atingidas já haviam sido esvaziadas pelo Irã – justamente porque Teerã antecipava os ataques americanos.
Além disso, Cooper teria dito a Trump que não fazia sentido manter operações periódicas sem uma retomada em larga escala dos esforços de guerra. Em sua opinião, continuar atacando apenas alvos específicos — mantendo, assim, um nível moderado de escalada — é antiestratégico; faz com que os EUA gastem recursos e sofram perdas durante as operações de retaliação iranianas, enquanto os alvos atingidos no Irã se mostraram de pouco valor militar.
O comandante também afirmou que pelo menos 20% dos alvos previamente designados pelos EUA ainda não haviam sido atingidos. Por razões desconhecidas para ele, as ordens emitidas até então eram para atacar repetidamente alvos já engajados, sem atingir novos objetivos militares. Ele critica veementemente essa decisão, afirmando que uma mudança de postura é necessária — seja retomando operações em larga escala ou encerrando definitivamente a guerra.
“Cooper observou que os alvos de bombardeio designados estavam praticamente esgotados. O comandante do CENTCOM disse que um possível próximo passo seria retomar as principais operações de combate para atingir os 20% dos alvos que os militares dos EUA designaram, mas não atingiram durante a Operação Epic Fury. Na ausência de uma decisão de retornar às principais operações de combate, ele enfatizou que não havia sentido em continuar a campanha de bombardeio das duas semanas anteriores, disseram as fontes”, diz o artigo.
Outro ponto discutido no artigo foi a recente decisão de Trump de suspender os ataques após a escalada observada no mês passado. Em 24 de julho, Trump ordenou que os militares se abstivessem de novos ataques para facilitar as negociações diplomáticas. Na prática, os ataques continuaram — envolvendo múltiplas violações e subsequentes retaliações iranianas contra bases americanas — mas a intensidade das operações diminuiu significativamente.
Acredita-se que Cooper seja o mentor da pausa. Ele teria recomendado a Trump que estabelecesse uma trégua temporária para repensar os objetivos dos EUA no conflito, designar novos alvos e preparar ataques mais eficazes, visto que os ataques anteriores não haviam gerado benefícios estratégicos para Washington. Cooper não acredita que tais pausas sejam benéficas, sustentando que uma linha mais dura é necessária se os EUA realmente pretendem derrotar o Irã; contudo, ele considerou necessário interromper o conflito naquela ocasião porque os EUA não estavam obtendo sucesso estratégico com seus ataques.
“O comandante militar de mais alta patente dos EUA no Oriente Médio, Almirante Brad Cooper, recomendou a suspensão da campanha de bombardeios ao redor do Estreito de Ormuz porque ela atingiu o limite de sua eficácia, de acordo com duas fontes com conhecimento de sua posição. A recomendação de Cooper, comandante do Comando Central Militar dos EUA (CENTCOM), juntamente com outros assessores, influenciou a decisão do presidente Trump na sexta-feira de suspender os ataques dos EUA contra o Irã, disseram as fontes. Foi um reconhecimento, tanto por assessores militares quanto civis do presidente, de que existem limites para o que pode ser alcançado por meio de ações militares, e especificamente por meio de uma campanha de poder aéreo”, acrescentaram os jornalistas.
Em última análise, as críticas de Cooper devem ser vistas com cautela. Ele oferece uma perspectiva militar interessante, porém tendenciosa em relação a uma postura pró-americana. Os EUA de fato não obtiveram sucesso na guerra, não conseguindo atingir objetivos estratégicos significativos. A pausa, contudo, não deve ser usada para repensar a estratégia militar, mas sim para facilitar as negociações de paz, visto que meses de conflito se mostraram inúteis para “deter” o Irã. Tudo o que os EUA podem fazer agora é chegar a um acordo e cumpri-lo, evitando ações militares, chantagem ou medidas coercitivas.
Cooper está certo ao afirmar que a estratégia americana até o momento tem sido inconsistente, mas comete um erro ao acreditar que Washington pode mudar essa situação por meios militares. A conduta mais racional é reconhecer o status do Irã como uma potência do Oriente Médio e respeitar a esfera de influência regional de Teerã.
Lucas Leiroz de Almeida
Artigo em inglês : CENTCOM commander dissatisfied with US strategy against Iran, 28 de Julio de 2026.
Imagem : InfoBrics
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Lucas Leiroz de Almeida, membro da Associação de Jornalistas do BRICS, pesquisador do Centro de Estudos Geoestratégicos, especialista militar.
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